Transições
O compasso entre os quadros.
Algo que gosto muito de trabalhar nos meus stop motions, principalmente nas animações com bonecos, são as mudanças de enquadramento e de cenas.
Durante a produção do Projeto Cenas, minha série de animação que também foi chamada de Uma semana com Beth, consegui explorar muito essas mudanças trazendo mais dinamismo para cenas que em si eram de fato simples, mas ao ter uma mudança de enquadramento já trazia um pouco mais de complexidade para o processo da animação, além de algumas técnicas como lip sync e ciclo de caminhada.
Quando trabalhamos com uma sequência de diferente cenas e enquadramentos na nossa animação o timing é algo muito importante, pensar em quantos segundos cada cena vai ter e quanto tempo de pausa vai ser preciso no frame que antecede a transição de uma cena para outra além de definir o ritmo da animação, também é fundamental para que os detalhes da história que estamos contando possam ser percebidos por quem está assistindo o nosso stop motion.
Mudanças de enquadramento podem acontecer em poucos segundos, e podemos perceber isso nos filmes, novelas ou propagandas que assistimos no nosso dia a dia, no stop motion então isso não é diferente, mas algo que percebi que funciona muito no meu processo de animação é definir um tempo mínimo de 2 segundos (24 frames) para cada cena ou enquadramento, menos do que isso acho um pouco difícil perceber o que está acontecendo na cena e geralmente no frame que antecede a transição para a próxima cena ou enquadramento, eu costumo colocar uma pausa de 2 ou 3 frames mas isso depende muito se não tem um ciclo de caminhada do meu personagem acontecendo, nesse caso se tiver, daí eu não adiciono pausa pois mesmo que seja por um breve instante, essa pausa no ciclo de caminhada pode parecer que o personagem congelou ao dar o último passo.




Vai muito do feeling e da vibe que quero em algumas animações, mas em alguns casos gosto de que a cena termine ficando escura acontecendo na tela o que é chamado de Fade in, principalmente em animações onde não tem um looping e a cena final termina em um enquadramento ou cena muito diferente da cena inicial, pode ser interessante esse efeito ser aplicado. Nesses casos o que gosto de fazer é deixar uma pausa bem longa no último frame, algumas vezes chegando a ter 1 segundo de pausa (12 frames), para então aplicar o fade in e desse modo não ter a cena escurecendo muito rápido.
Como no Instagram os vídeos funcionam em looping, recomeçando logo após seu término sem precisarmos dar o play, esse efeito de fade in pode ficar interessante para a transição para o recomeço da animação. Mas nem sempre esse efeito vai ser necessário, as vezes apenas uma pausa no frame final também dá super certo para o que queremos no nosso stop motion.
Com a prática vamos desenvolvendo também essa noção do que funciona ou não para cada tipo de animação que fazemos e a percepção do tempo que queremos para cada cena e o que vai dar certo ou não nas pausas que antecedem a transição das mesmas.
As transições dos nossos estilos.
Ao longo da prática da nossa arte além do nosso estilo ir se definindo ficando cada vez mais com a nossa identidade; o nosso traço, as cores que gostamos de usar, elementos que podem se repetir nas nossas criações e as características que quem vê a nossa animação (ou qualquer que seja a nossa criação) percebe que essa arte foi feita pela gente, também podem ir gradualmente transitando para algo que não planejamos inicialmente mas que ao longo do tempo vai tendo sentido.
Como já disse em algumas edições aqui da news, não gosto muito da ideia de se prender a um nicho na arte que faço, amo a liberdade que a experimentação traz para nossas criações e acredito que essa experimentação também acaba levando a nossa arte a uma transição de seu estilo em sí, o que criamos não é imutável e essas transformações que ocorrem ao longo da nossa jornada vai carregando a essência da bagagem da identidade que vamos definindo no nosso caminho, pois apesar das mudanças que podem ocorrer ainda vamos tendo muito da nossa estética, o nosso olhar, o que colocamos da gente na nossa arte.
Estou numa fase que venho mostrando não só os meus stop motions, mas videos em hyperlapse, mídia mista e animações 2D desenhadas a mão, além de mostrar animações passadas mescladas com ilustração digital; já teve um tempo que eu ficava na dúvida se colocaria tudo isso junto e até misturado no meu perfil de stop motion lá no Instagram, se expandir de certa forma o que faço por lá não iria confundir quem me acompanha, aquelas questões que surgem de tanto que eu já ouvi falar sobre focar em um nicho só. Mas ter feito essa transição de um perfil meio que portfólio, para algo que traz um registro de várias artes que gosto de experimentar, trouxe um pouco mais da minha essência para aquele meu espaço, seguindo um pouco o que um dia ouvi em um podcast que nossa rede social seria como se fosse nossos diários, e isso me trouxe uma leveza na minha criação até a ir mais devagar no meu ritmo quando eu sinto que é preciso.
Transições também podem apontar o que faz sentido ou não na nossa criação, o que costumávamos criar e que hoje não nos traz mais aquele brilho nos olhos, e isso talvez seja um pouco do que eu sinto em relação a animação de produto, da qual eu me afastei já faz um tempo, hoje tenho curtido mais fazer stop motion com cenários, que mostrem alguma cena, em papel, feltragem, com bonecos, com massinha, trazendo alguma história curtinha ou com uma cena apenas para treinar um movimento, me conectando com a animação como um projeto pessoal que explora minha criatividade e não algo comercial, para criação de portfólio ou prospecção de clientes, hoje isso não é mais o foco mas não quer dizer também que amanhã isso não possa ser o foco novamente.
Nada é imutável, linear ou escrito em pedra, nossa visão e o que faz sentido na nossa arte está em uma constante transição de estilo e intenção.
Ilustração que fiz mesclada com um claymation com lip sync que tinha feito um tempo atrás. Usei os softwares Procreate e Procreate Dreams no processo de mesclar a animação que eu tinha feito usando o software Dragon frame.
E por falar em indicações…
Eu amei esse stop motion feito com papel pelo Can can club.
Gostei muito dessas ideias de conteúdo de verão que a animadora Alice Loveday trouxe em seu perfil no Instagram.
Achei incrível o processo de construção dessa miniatura feita pela filmmaker e miniaturista Marina Torino.
Nessa edição da E por falar em Stop Motion eu falei um pouco sobre as transformações de materiais e do nosso estilo.
Tenha uma ótima semana e até a próxima.
Abraços, Luciana.
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